Existe uma frase clichê que diz que a “a vida imita a arte”. O contrário, obviamente, também acontece e a arte imita a vida muitas e muitas vezes. Isso mostra que, o fato de crises de refugiados serem um tema recorrente em produções audiovisuais não é nenhuma novidade, tampouco é um assunto que vai deixar de ser debatido e exibido dentro das produções. O que surpreende aqui é onde este tema está sendo trabalhado.

Supergirl é uma produção voltada a um público muito específico - assim como as demais produções da CW/Warner dentro do universo expandido de séries da DC Comics. Talvez pela especificidade de suas produções e, visto que, suas irmãs de casa não tratam temas humanitários, foi surpreendente ver essa temporada da série e notar o que se está trabalhando ali.

Devo dizer que não é a primeira vez que a Garota de Aço me surpreende. Em anos anteriores a produção ignorou o fato de fazer parte de outro universo e mencionou a tentativa do presidente Trump de construir um muro para separar México dos EUA. A série se passa na Terra-38, uma das tantas do Multiverso DC.

Apesar disso, o quarto ano da produção mostra - um pouco - os motivos para que ela seja considerada por muitos, inclusive por mim, a melhor das séries da DC em exibição na atualidade. Seu cuidado ao trabalhar determinadas pautas e seu link com a realidade dão uma maturidade a série que, por vezes, falta em suas irmãs - como Flash, por exemplo.

Mas e os refugiados?

Não é de hoje que a crise dos refugiados têm se tornado um assunto amplamente discutido no mundo. Sírios tentando fugir em direção a Europa. Africanos, Haitianos e, agora, Venezuelanos chegando ao Brasil, mostram a forte e preocupante crise humanitária que vem assolando o planeta.
Em Supergirl, os refugiados vêm de mais longe.

No longínquo início da série já podíamos ver um bar específico para alienígenas refugiados na Terra. Mal sabíamos que suas histórias se tornariam, temporada após temporada, algo mais do que apenas figuração para o elenco principal ou cenário para lutas e investigações na busca pelos vilões foragidos da Zona Fantasma.

Com a própria Kara Zor-El sendo uma refugiada após a destruição de Krypton, Supergirl trabalha o assunto com um cuidado que nos faz notar, facilmente, onde a série quer chegar em nível de maturidade e comprometimento com suas pautas. Deixamos a Kara que lidava com romances dispensáveis para trás e agora abordamos assuntos mais relevantes.

É impossível não notar as referências a realidade. Seres de outro lugar que buscam uma vida nova em uma terra desconhecida, que vieram fugindo da destruição ou da guerra, que são vistos como inimigo por quem se diz “cidadão de bem” e sendo alvo de agressões apenas por tentarem viver suas vidas. Uma situação agravada quando a própria Presidenta Americana tem a identidade alienígena revelada e se vê obrigada a renunciar para que um humano, “verdadeiro representante da humanidade” assuma.

Em oito episódios exibidos até o momento, o trabalho da série se propôs a colocar os conflitos frente a frente com o espectador e esperar por sua reação. Pausa para a cena em que Brainy tem a identidade revelada e vê alguém que considerava uma pessoa amiga se voltar contra ele, um momento que mostra como o humano teme o que não entende.

É um serviço de entendimento que espalha uma mensagem clara: somos todos iguais, até deixarmos de ser aos olhos do outro. O que Supergirl trabalhou em oito episódios mostra que o audiovisual não precisa ficar focado no entretenimento, mas pode instruir também. Com isso volto ao início deste texto onde falo que a série tem um público alvo específico. Este nicho, tendo contato com esse tipo de pauta, é algo que somente uma boa produção poderia proporcionar.

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